Era como ver a mim mesma, mas era a Outra. Tinha o mesmo jeito de sorver o café fechando os olhos para sentir-se envolvida pela fumaça e nada em seu rosto denunciava dor ou desconforto no líquido que, por certo, queimava-lhe a língua. Numa das mãos, o cigarro já aceso antes do primeiro gole denunciava-lhe a ansiedade e o encurtamento dos rituais em nome de um imediatismo contínuo nos ciclos de prazer. Ciclos que se complementavam e que isolados causariam o desprazer da insuficiência.
Era idêntica a mim em quase tudo, mas era a Outra. E era dura. Não ouso tocá-la para confirmar-lhe a materialidade. Há algo de extremo nela e sinto que se alterna entre o gelado e o incandescente. Em todo caso, intocável. Meio que apavorante. É calma e lenta como um bicho dos montes. E derrama em mim o que em si ousa ser bruma. Quase não fala, seu olhar não treme nem ameaça, mas quando me olha, reduz, censura, injeta vergonha e pequenez nas minhas sardas. Em cada uma delas.
Era do meu tamanho, tinha o mesmo peso que eu, as mesmas cicatrizes. Mas seus joelhos não tremiam, seu andar não vacilava. Acho que nunca conheceu o tropeço. Sinto um impulso ridículo de elogiar-lhe a força e, indecisa, não sei se devo agradecer por ela ser parte de mim, mesmo sendo a Outra – a inoperante. Arrisco um olhar de segundos e é o que basta para ver um movimento sarcástico na sobrancelha esquerda.
Quase sussurrando, pergunto:
- O que você fez pra ficar assim, inteira?
A resposta veio curta, precisa, sem sombra de vacilação. Imediata:
- Amei menos.

Era como ver a mim mesma, mas era a Outra. Tinha o mesmo jeito de sorver o café fechando os olhos para sentir-se envolvida pela fumaça e nada em seu rosto denunciava dor ou desconforto no líquido que, por certo, queimava-lhe a língua. Numa das mãos, o cigarro já aceso antes do primeiro gole denunciava-lhe a ansiedade e o encurtamento dos rituais em nome de um imediatismo contínuo nos ciclos de prazer. Ciclos que se complementavam e que isolados causariam o desprazer da insuficiência.

Era idêntica a mim em quase tudo, mas era a Outra. E era dura. Não ouso tocá-la para confirmar-lhe a materialidade. Há algo de extremo nela e sinto que se alterna entre o gelado e o incandescente. Em todo caso, intocável. Meio que apavorante. É calma e lenta como um bicho dos montes. E derrama em mim o que em si ousa ser bruma. Quase não fala, seu olhar não treme nem ameaça, mas quando me olha, reduz, censura, injeta vergonha e pequenez nas minhas sardas. Em cada uma delas.

Era do meu tamanho, tinha o mesmo peso que eu, as mesmas cicatrizes. Mas seus joelhos não tremiam, seu andar não vacilava. Acho que nunca conheceu o tropeço. Sinto um impulso ridículo de elogiar-lhe a força e, indecisa, não sei se devo agradecer por ela ser parte de mim, mesmo sendo a Outra – a inoperante. Arrisco um olhar de segundos e é o que basta para ver um movimento sarcástico na sobrancelha esquerda.

Quase sussurrando, pergunto:

- O que você fez pra ficar assim, inteira?

A resposta veio curta, precisa, sem sombra de vacilação. Imediata:

- Amei menos.